Foto: Franco Monsalvo / Pexels
A decepção volta a assombrar o futebol brasileiro. Mais um fracasso da seleção, mais uma expectativa criada acima da realidade, e logo surgem aqueles discursos sedutores que ecoam nas redes sociais e nos bares: “precisamos voltar aos anos 60 e 70, resgatar o futebol arte, aquele jogo cheio de dribles e improvisações sem amarras táticas”.
Bonito de ouvir? Sim. Viável? Não.
O problema não está em abandonar nossa identidade criativa — essa marca registrada do futebol tupiniquim jamais deve desaparecer. O dilema real é que continuamos prisioneiros de uma falsa escolha: ou jogamos de forma romântica e desorganizada, ou abraçamos um futebol mecanicista e sem alma. A verdade é que o mundo mudou, e a realidade nos cobra uma terceira via.
Dribles não faltam no Brasil. Nunca faltaram. O que nos falta é a capacidade de conectar esse talento individual ao trabalho coletivo. Enquanto nossos times insistem em buscar a estocada rápida, o lance individual brilhante e a correria desesperada em direção ao gol, as potências mundiais constroem padrões de jogo: dominam a bola, trocam passes com propósito, controlam o ritmo e sufocam os adversários com sua organização ofensiva.
Não se trata de matar a criatividade no berço. Trata-se de canalizá-la. Um Neymar ou um Vinicius Jr. não perde sua magia ao estar inserido em um projeto coletivo disciplinado — na verdade, ganham potencial ofensivo quando têm uma equipe funcionando em seu favor.
O futuro do futebol brasileiro não está na nostalgia de tempos que não voltam. Também não está em abraçar modelos europeus que já mostram sinais de desgaste. Está em uma síntese inteligente: manter nosso DNA criativo e agregá-lo a uma estrutura tática moderna, onde cada jogador sabe seu papel e os movimentos individuais servem a um propósito maior.
Enquanto não entendermos isso, continuaremos fracassando — e culpando o destino por nossas próprias escolhas.
Fonte: Folha Esporte
